Caroline Gandara

A matemática do churn: por que vender mais não faz a agência crescer

Existe um ponto em que cada contrato novo só repõe um contrato perdido, e ele chega antes do que se imagina. Veja como calcular o seu e o que muda o resultado dessa conta.

Caroline Gandara

Caroline Gandara
· 9 min de leitura

Principais aprendizados

  • Crescer não é vender mais: é vender mais do que se perde. Com perda alta, cada contrato novo apenas repõe um contrato que saiu.
  • Com 20% de saída por mês, a carteira estaciona em cerca de um ano. Com 5%, o mesmo ponto se afasta para perto de quatro anos.
  • Perder clientes e perder receita são números diferentes: sair um cliente grande dói muito mais no caixa do que sair três pequenos.
  • Quanto mais a operação depende de vender, mais agressivo fica o comercial, pior é o cliente que entra e maior fica a perda no mês seguinte.
  • Reduzir a saída é quase sempre mais barato do que aumentar a entrada, porque cliente novo custa dinheiro e cliente antigo já está pago.

Existe uma cena comum em agência de tráfego: o mês fecha com dois contratos novos, o time comemora, e no mês seguinte o faturamento é praticamente o mesmo. Nada deu errado no comercial. O que aconteceu é que, enquanto dois entraram, dois saíram.

Esse é o assunto mais mal medido do negócio de recorrência. Todo mundo sabe quantos clientes fechou no mês; quase ninguém sabe quantos perdeu, em que ponto do contrato eles saem e quanto isso custa. E é essa segunda metade da conta que define o teto de crescimento, antes de qualquer esforço de venda.

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Crescer é vender mais do que se perde

Chame de taxa de saída a fatia da carteira que vai embora dentro de um mês, contada em quantidade de contratos ou em dinheiro recorrente. Ela responde uma pergunta só, mas decisiva: de tudo o que eu tinha no dia primeiro, quanto ainda estava comigo no dia trinta.

O que torna esse número perigoso é que ele age sobre o total, e não sobre a entrada. Uma carteira maior perde mais em números absolutos com a mesma taxa. É por isso que existe um ponto em que a perda alcança a entrada e o crescimento para sozinho, mesmo com o comercial vendendo exatamente como sempre vendeu.

Exemplo com perda de 20% ao mês

  • Carteira de 20 clientes, entrando 4 por mês
  • 20% de 20 clientes é a perda de 4 no mesmo mês
  • Saldo do mês: zero

Nesse ritmo, a carteira estaciona por volta de um ano de operação.

Agora troque só a taxa de saída, mantendo o mesmo comercial e a mesma entrada de quatro clientes por mês:

O mesmo comercial, com perda de 5% ao mês

  • Carteira de 20 clientes, entrando 4 por mês
  • 5% de 20 clientes é a perda de 1 no mesmo mês
  • Saldo do mês: mais 3 clientes

O ponto em que a carteira para de crescer se afasta para perto de quatro anos.

A diferença entre estacionar em um ano e crescer por quatro não veio de vender mais. Veio de perder menos.

Os dois números que precisam ser medidos separados

Contar clientes perdidos é o começo, e é insuficiente. Duas contas diferentes contam histórias diferentes sobre o mesmo mês:

O que medir

Clientes perdidos

Como se lê

Quantos saíram no período, sobre o total

Por que importa

Mostra o tamanho do problema de relacionamento

O que medir

Receita perdida

Como se lê

Quanto de mensalidade saiu, sobre a receita recorrente

Por que importa

Mostra o tamanho do problema no caixa

O que medir

Tempo de permanência

Como se lê

Quantos meses o cliente fica, em média

Por que importa

Define quanto você pode gastar para conquistar um cliente novo

Os dois primeiros divergem com frequência, e a divergência é informação. Perder três contas pequenas e perder uma conta grande podem dar a mesma perda de clientes com efeitos opostos no caixa. Quem só acompanha o primeiro número acha que teve um mês ruim quando teve um mês tranquilo, e o contrário também acontece.

O terceiro é o que quase ninguém sabe de cabeça e deveria saber, porque é ele que autoriza ou proíbe investir em aquisição. Sem tempo de permanência, não existe conta de quanto vale conquistar um cliente.

O prazo pesa tanto quanto o valor

É comum olhar para o custo de trazer um cliente e comparar com a mensalidade. A comparação certa é com tudo o que aquele cliente deixa enquanto fica.

O mesmo cliente, dois prazos diferentes

  • Mensalidade de R$ 1.500
  • Custo para conquistá-lo, somando anúncio, tempo e comissão: R$ 1.800
  • Ficando 6 meses: R$ 9.000 recebidos, retorno de 5 vezes o custo
  • Ficando 3 meses: R$ 4.500 recebidos, retorno de 2,5 vezes

O custo de aquisição não cai pela metade quando o cliente sai antes. Só a receita cai.

Para ler esse retorno, uso três faixas. Receber menos do que se gastou para conquistar o cliente é prejuízo, sem discussão. Receber até o triplo parece saudável no papel e aperta na prática, porque a conta de aquisição ignora o custo de entregar todo mês. Acima do triplo é onde existe folga para investir mais em captação. E repare em que ponto essa razão se move mais rápido: alongar o tempo de casa muda o resultado muito mais do que espremer o custo do anúncio, e tempo de casa se conquista na entrega, não na mídia.

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O ciclo que se alimenta sozinho

Existe um efeito perverso que aparece quando a perda é alta e ninguém enfrenta a causa. Ele funciona assim:

  1. 1A receita depende de vender, porque a base não se sustenta sozinha.
  2. 2O comercial fica mais agressivo, porque a meta não pode falhar.
  3. 3Entra cliente pior: com expectativa errada, com porte errado, com pressa.
  4. 4A perda aumenta no trimestre seguinte, porque esse cliente não deveria ter entrado.
  5. 5A pressão de vender aumenta de novo, e o ciclo recomeça em um patamar pior.

Quebrar esse ciclo raramente é assunto de comercial. É assunto de qualificação na entrada e de entrega nos primeiros noventa dias, que é exatamente onde a maior parte da perda acontece, como está em por que o cliente some no terceiro mês.

Onde a saída realmente acontece

Antes de tentar reduzir a perda, é preciso saber onde ela mora. Anote a data de entrada e a data de saída de cada cliente dos últimos doze meses e olhe a distribuição. Costuma cair em uma destas três faixas:

Quando o cliente sai

Nos dois primeiros meses

O que isso indica

Venda mal feita: expectativa combinada errada ou cliente sem porte

Quando o cliente sai

Entre o terceiro e o sexto

O que isso indica

Percepção de valor: ele não enxerga o trabalho que existe

Quando o cliente sai

Na virada do contrato

O que isso indica

Falta de preparação: a renovação foi tratada só no vencimento

Cada faixa pede uma correção diferente, e é por isso que a resposta genérica de dar mais atenção ao cliente não funciona: atenção no mês cinco não conserta uma venda mal feita no mês zero.

O que sustenta a permanência

  • Entrega visível todo mês, não só na venda. A venda é a promessa; cada mês seguinte é o cumprimento dela. Quando o cliente não vê o trabalho, ele conclui que não existe.
  • Contato em ritmo fixo, mesmo curto. Silêncio de quatro semanas é preenchido pela imaginação de quem paga, e ela raramente é generosa.
  • Uma métrica combinada desde a primeira reunião, para que cada conversa discuta o mesmo número, e não um diferente por mês.
  • Rotina de revisão a cada trimestre, com o histórico do que foi feito. A renovação se constrói ao longo do contrato, nunca no vencimento.
  • Ler o cliente que fica quieto. Muita gente não tem coragem de dizer que apertou o caixa e escolhe o silêncio, quando existiria um formato menor possível.

Nenhum desses itens exige contratar ninguém. Todos exigem tempo na semana, e tempo é o que falta quando a operação consome o dia inteiro. A conta de quanto a sua carteira come da sua semana está em quantos clientes um gestor consegue atender sozinho.

Os erros que aparecem quando se olha esse número

  • Medir só no fim do ano. A perda é um problema de tendência: quando aparece no balanço, já custou dois trimestres.
  • Tratar toda saída igual. Cliente que sai porque fechou as portas e cliente que sai porque não viu resultado são coisas diferentes, e misturar os dois esconde a causa real.
  • Comemorar mês recorde de vendas sem olhar a saída. Recorde de entrada com recorde de saída é operação girando no lugar, com mais trabalho.
  • Achar que desconto segura cliente. Segura por um ou dois meses e derruba a margem, porque o motivo quase nunca era preço.
  • Não conversar com quem saiu. A pergunta feita duas semanas depois, sem tentar vender nada, costuma render mais informação que três relatórios.

O que fazer com esse número na segunda-feira

Três passos, na ordem, e nenhum deles depende de ferramenta nova. Primeiro, levante quantos clientes e quanta receita saíram nos últimos doze meses, mês a mês. Segundo, marque em que faixa do contrato cada saída aconteceu. Terceiro, escolha uma única faixa, a mais cheia, e trabalhe só nela por um trimestre.

Quem tenta consertar as três ao mesmo tempo não conserta nenhuma. E quem reduz a perda pela metade dobra o horizonte de crescimento sem vender um contrato a mais, sem contratar ninguém e sem gastar um real de mídia.

Perguntas frequentes

O que é churn em uma agência de tráfego?

É a proporção de clientes, ou de receita recorrente, que a agência perde a cada mês. Ele é o outro lado do tempo de permanência: quanto maior o churn, menos tempo o cliente fica pagando, e mais a operação depende de vender para não encolher.

Qual é um churn aceitável para agência de tráfego?

Não existe número universal, mas a diferença de comportamento é grande: com 20% ao mês a carteira estaciona em cerca de um ano, e com 5% o mesmo ponto se afasta para perto de quatro anos. O que interessa é a tendência do seu próprio número, medida mês a mês.

Como calcular o churn da minha carteira?

Divida quantos clientes saíram no mês pelo total de clientes que você tinha no começo daquele mês. Faça a mesma conta com a receita recorrente, porque os dois números costumam divergir e cada um mostra uma parte diferente do problema.

É melhor investir em vender mais ou em reduzir o churn?

Em reduzir a saída, quase sempre. Cliente novo custa mídia, tempo e comissão; cliente que já está na base já foi pago. Além disso, permanência maior aumenta o quanto você pode gastar para conquistar o próximo, o que destrava a aquisição em vez de competir com ela.

Em que momento do contrato o cliente costuma sair?

Em três faixas típicas: nos dois primeiros meses, quando a venda foi mal feita; entre o terceiro e o sexto, quando falta percepção de valor; e na virada do contrato, quando a renovação só foi tratada no vencimento. Cada faixa exige uma correção diferente.

Vale a pena conversar com o cliente que cancelou?

Vale, e o melhor momento é cerca de duas semanas depois da saída, sem tentar vender nada. Sem a tensão da negociação, a resposta costuma ser honesta e revelar a causa real, que quase nunca é a que foi dita no dia do cancelamento.

Caroline Gandara

Caroline Gandara

Gestora de tráfego pago e empreendedora. Atende clientes, constrói os próprios sistemas e ensina gestores a fazerem o mesmo.

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