Caroline Gandara

O que responder quando o cliente pede desconto

O pedido de desconto quase nunca é sobre dinheiro. Veja como identificar o que está por trás dele, a conta do que um abatimento custa ao longo do contrato e as respostas que reduzem escopo em vez de preço.

Caroline Gandara

Caroline Gandara
· 10 min de leitura

Principais aprendizados

  • Pedido de desconto raramente é falta de dinheiro. Costuma ser medo de errar a escolha, falta de referência para julgar o valor ou hábito de negociar, e cada caso pede uma resposta diferente.
  • Desconto não é um evento, é um preço novo: o valor concedido para fechar vale todos os meses do contrato e nunca volta sozinho ao patamar anterior.
  • A regra que organiza a conversa inteira cabe em uma linha: quando o valor aperta, o que desce é o escopo, nunca o preço do mesmo trabalho.
  • A frase que resolve a maior parte dos casos oferece escolha em vez de recusa: é possível chegar nesse valor, e nele o pacote passa a ser este outro, com menos canais ou menos acompanhamento.
  • Abrir mão de valor só faz sentido com contrapartida que reduza o seu risco ou o seu custo: pagamento antecipado, prazo maior com aviso de saída ou aprovação que consome menos horas suas.

O que responder quando o cliente pede desconto é a dúvida que aparece no momento mais delicado de uma venda de gestão de tráfego: a proposta já foi lida, o problema já foi discutido e a conversa parecia caminhar para o sim. Então chega a frase, quase sempre educada, dizendo que gostou de tudo e que só o valor ficou acima do previsto. Duas semanas de trabalho comercial ficam suspensas na resposta que vem a seguir.

O reflexo mais comum é ceder rápido, porque duzentos reais a menos parecem baratos diante do risco de perder a conta. Só que o abatimento não acontece uma vez: ele vira o preço daquele contrato em todos os meses seguintes e costuma virar também a referência interna do que aquele tipo de cliente paga.

Existe uma regra que organiza essa conversa inteira e cabe em uma linha: quando o valor aperta, o que desce é o escopo, nunca o preço do mesmo trabalho. Este texto mostra como identificar o que está sendo pedido de verdade, quanto custa cada ponto percentual cedido, quais respostas funcionam para cada tipo de pedido e em quais poucos casos ceder é decisão de negócio.

Curso de Automações, por Caroline Gandara.

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O pedido de desconto quase nunca é sobre o dinheiro

A mesma frase costuma esconder três situações diferentes, e responder às três do mesmo jeito é o que faz uma delas terminar em desconto desnecessário e outra em cliente perdido.

  • Medo de errar a escolha. O cliente já pagou por serviço de marketing que não funcionou e procura reduzir o tamanho do prejuízo caso isso se repita. O incômodo é o risco, não o valor, e preço menor sinaliza justamente aquilo que ele teme.
  • Falta de referência. Ele nunca contratou gestão de tráfego e não tem com o que comparar. Valor sem contexto é sempre alto, porque não existe régua. O que resolve aqui é dimensionar o problema em número.
  • Hábito de negociar. Em muitos setores pedir abatimento é etapa obrigatória de qualquer compra, e a pergunta chega sem expectativa real de ser aceita. Ceder aqui é dar dinheiro para quem já tinha decidido comprar.

Uma pergunta separa os três casos, e ela vem antes de qualquer contraproposta: o valor está acima do que ele tinha reservado para este mês, ou a dúvida é sobre o que exatamente vai acontecer por esse valor? Quem fala de orçamento tem um limite real e precisa de um pacote menor; quem fala do que vai acontecer está pedindo segurança, e segurança se dá com plano, prazo e acompanhamento. A condução dessa conversa desde o começo está em a reunião que termina em vou pensar.

Quem responde ao pedido de desconto antes de descobrir o que ele significa está resolvendo com dinheiro um problema que quase nunca é de dinheiro.

O desconto de hoje é o preço de todos os meses seguintes

A concessão é percebida como um valor pequeno em um mês, quando na verdade incide sobre a duração inteira do contrato e sai direto do lucro, porque o custo de atender aquela conta continua igual. Os números abaixo servem apenas para mostrar o formato do cálculo.

Exemplo: o que custa um desconto de 15%

  • Valor da proposta: R$ 2.000 por mês
  • Desconto concedido para fechar: 15%, ou R$ 300 por mês
  • Custo direto da conta, entre ferramentas e horas de atendimento: R$ 1.200 por mês
  • Lucro com o preço cheio: R$ 800 por mês
  • Lucro com o desconto: R$ 500 por mês
  • Duração média do contrato neste exemplo: 14 meses
  • Total cedido ao longo do contrato: R$ 4.200

Quinze por cento no preço viraram trinta e sete por cento a menos de lucro, porque o custo de atender não caiu junto. E o valor cedido no contrato equivale a dois meses inteiros de trabalho entregues sem cobrança. Os números são exemplo.

A distorção acontece sempre que existe custo fixo por conta, e é mais violenta quanto mais apertada for a margem original. Se o seu preço nunca foi montado a partir do custo da sua hora, essa conta não tem como ser feita no meio de uma negociação, e é por isso que a maior parte dos descontos é decidida no escuro. O método está em quanto cobrar por gestão de tráfego.

Há ainda um efeito que não aparece na planilha: a conta que rende menos costuma ser a última da fila em toda semana cheia. O desconto que salvou a venda é o mesmo que produz o atendimento morno de quatro meses depois, padrão descrito em por que o cliente some no terceiro mês.

A resposta que funciona troca escopo por valor

Quando o limite de orçamento é real, negar não fecha e ceder estraga. A saída é uma terceira resposta, que mantém o preço por hora onde estava e ajusta o tamanho do trabalho. Ela se apoia em uma frase que precisa estar pronta antes da reunião: é possível chegar nesse valor, e nele o pacote passa a ser este outro. Não soa como recuo porque não é recuo, é oferta diferente.

Para essa frase existir, o escopo precisa estar escrito em quantidade desde a proposta. Escopo descrito com adjetivo não tem o que reduzir: não é possível tirar metade de um acompanhamento próximo.

O que sai do pacote

Um dos canais anunciados

Quanto o valor cai

Entre 25% e 35%

O que muda para o cliente

Testa um canal por vez e demora mais para saber qual traz contato mais barato

O que sai do pacote

Produção de peças

Quanto o valor cai

Entre 15% e 25%

O que muda para o cliente

Passa a enviar o material pronto e assume o prazo do que sobe

O que sai do pacote

Frequência do acompanhamento

Quanto o valor cai

Entre 10% e 15%

O que muda para o cliente

Recebe leitura mensal em vez de quinzenal e decide com mais atraso

O que sai do pacote

Reunião ao vivo

Quanto o valor cai

Entre 10% e 15%

O que muda para o cliente

Troca o encontro por um resumo escrito, o que serve bem a quem tem agenda cheia

O que sai do pacote

Painel de acompanhamento

Quanto o valor cai

Entre 5% e 10%

O que muda para o cliente

Volta a depender da data do relatório para enxergar a conta

Apresentada assim, a redução faz o cliente enxergar que o valor tinha partes, e não era um número único. Boa parte das pessoas recusa e fecha no valor cheio, porque perder canal ou acompanhamento incomoda mais que pagar a diferença. E quem aceita recebe menos por menos, com a sua hora valendo o mesmo.

Baixar o preço mantendo a entrega ensina ao cliente que o valor inicial era inflado. Baixar a entrega junto com o preço ensina que ali existia um cálculo.

Curso de Automações, por Caroline Gandara.

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Cada tipo de pedido tem uma resposta diferente

Na prática, o pedido chega em quatro formatos recorrentes. Ter a linha de resposta decidida antes evita a improvisação, que é onde o desconto costuma escapar.

O que o cliente diz

Ficou acima do que eu esperava

O que costuma significar

Não existe referência de mercado na cabeça dele

Por onde a resposta começa

Voltar ao tamanho do problema em número e mostrar o que está sendo perdido hoje

O que o cliente diz

Recebi outra proposta mais barata

O que costuma significar

Os dois documentos parecem iguais para quem lê

Por onde a resposta começa

Comparar escopo item a item, em quantidade, deixando explícito que são dois trabalhos diferentes

O que o cliente diz

Consigo pagar esse valor daqui a alguns meses

O que costuma significar

O limite de orçamento é real e presente

Por onde a resposta começa

Oferecer o pacote menor agora, com data marcada para rever o escopo quando o resultado aparecer

O que o cliente diz

Faz um preço no primeiro mês para eu testar

O que costuma significar

Ele quer reduzir o risco de contratar errado

Por onde a resposta começa

Manter o valor e reduzir o risco de outro jeito, com aviso de saída curto e sem multa no início

A quarta linha é a mais mal resolvida das quatro. Quem pede preço de teste está comprando segurança, e segurança sai de graça: um aviso de saída curto no primeiro mês entrega a garantia que ele procura sem mexer em um centavo. Já o desconto de entrada agenda um problema, que é a conversa de reajuste no mês seguinte, quando ainda não existe resultado para sustentá-la.

A conversa tem uma ordem, e ela não começa no valor

  1. 1Não responda no mesmo segundo. Uma pausa curta e uma pergunta valem mais que qualquer argumento pronto. Perguntar o que faria o valor caber costuma trazer a informação que faltava.
  2. 2Volte ao problema antes de voltar ao preço. Repetir o que foi dimensionado na reunião, com o número que ele mesmo forneceu, recoloca o valor em escala.
  3. 3Ofereça escolha em vez de recusa. Apresente o pacote menor com o que sai dele, escrito. A palavra não encerra a conversa; um segundo pacote a mantém aberta com o preço por hora intacto.
  4. 4Se houver concessão, exija contrapartida. Nenhum valor cai sem que algo mude do outro lado, seja escopo, seja prazo, seja forma de pagamento.
  5. 5Feche com data. Qualquer condição diferente precisa ter validade e estar no contrato, junto com a data em que o escopo volta a ser revisto.

Existem três casos em que ceder valor é decisão de negócio

Recusar desconto por princípio também é uma forma de não pensar. O que separa a concessão inteligente da perda de posição é uma pergunta única: isso reduz o meu custo ou o meu risco? Se reduzir, o valor menor está pago por algo.

  • Pagamento antecipado. Um trimestre pago de uma vez elimina cobrança mensal, atraso e o risco de a conta parar no meio do mês. Um abatimento entre cinco e dez por cento nesse formato costuma se pagar só em previsibilidade de caixa.
  • Prazo maior com regra de saída clara. Um compromisso de seis ou doze meses, com aviso prévio definido em contrato, dilui o custo de conquistar aquele cliente por muito mais meses. O que sustenta a concessão é o prazo escrito, não a intenção declarada na conversa.
  • Custo de atendimento menor. Cliente que aprova material em bloco e já tem processo comercial organizado consome bem menos horas suas. Se você consegue medir essa diferença, ela pode virar preço. Se não consegue medir, é só uma impressão simpática.

Nos três, a condição precisa estar no contrato com o motivo escrito. Desconto sem justificativa registrada vira preço normal em noventa dias, e o cliente terá razão em achar que aquilo é o valor do serviço.

Os erros que transformam desconto em prejuízo permanente

  • Ceder antes de o cliente pedir. Antecipar o abatimento na própria apresentação informa que o número anterior era decorativo e convida a uma segunda rodada de negociação.
  • Dar desconto mantendo a entrega inteira. É o erro central. O preço por hora cai, a expectativa fica igual e não sobra argumento para voltar ao valor cheio depois.
  • Justificar o preço pelo seu custo. Falar das suas ferramentas e do seu tempo transfere ao cliente um problema que não é dele. O valor se justifica pelo que ele recebe.
  • Negociar por mensagem. Desconto discutido por texto vira troca de números sem contexto e sem leitura de reação. Essa conversa acontece por voz e depois é confirmada por escrito.
  • Aceitar o valor menor sem prazo de revisão. Condição sem data para acabar é permanente, e o reajuste que vier depois será recebido como aumento, não como retorno ao combinado.
  • Confundir desconto com modelo de cobrança. Ceder no fixo para compensar com percentual sobre a verba muda a natureza do contrato, e não apenas o valor. Os efeitos dessa escolha estão em taxa fixa ou percentual da verba.

Um número mostra se você está descontando demais

Cada desconto isolado parece pequeno, e por isso o acompanhamento precisa ser da carteira inteira. Duas informações bastam: quantos contratos ativos pagam abaixo da tabela e qual é o abatimento médio deles.

Exemplo: o desconto acumulado de uma carteira

  • Carteira de exemplo: 10 contratos com preço de tabela de R$ 2.000
  • Faturamento previsto pela tabela: R$ 20.000 por mês
  • Contratos fechados com abatimento: 6
  • Desconto médio nesses seis: 12%, ou R$ 240 cada
  • Faturamento real: R$ 18.560 por mês
  • Diferença acumulada em doze meses: R$ 17.280

O valor cedido no ano equivale a quase dez meses de um contrato inteiro, sem nenhuma hora de trabalho a menos na semana. Quando mais da metade da carteira paga abaixo da tabela, o problema deixou de ser de negociação e passou a ser de preço. Os números são exemplo.

Valor de tabela, valor praticado, motivo da diferença e data de revisão em uma única lista transformam uma sensação em decisão de preço, e é o mesmo registro que avisa quando um contrato antigo ficou defasado. Onde manter esse controle sem virar planilha esquecida é o assunto de planilha ou sistema para gerenciar clientes.

O gestor que sabe exatamente o que sai do pacote quando o valor cai nunca precisa recusar um pedido de desconto. Ele responde com outra oferta, e quem escolhe é o cliente.

Perguntas frequentes

O que responder quando o cliente pede desconto na gestão de tráfego?

Antes de responder, descubra se o limite de orçamento é real ou se o que falta é segurança sobre o que vai acontecer. Sendo orçamento, ofereça um pacote menor pelo valor que cabe, com o que sai dele por escrito: um canal a menos, peças por conta do cliente ou acompanhamento mensal. Sendo insegurança, mantenha o valor e reduza o risco por outro caminho, com plano das primeiras semanas e prazo de saída curto no primeiro mês.

Vale a pena dar desconto para fechar o primeiro cliente?

Só com contrapartida, e ela precisa estar escrita. Sem histórico, o caminho mais seguro é manter o preço e reduzir o escopo, entregando um canal e um relatório mensal por um valor menor. Assim o primeiro contrato não fixa uma referência baixa para os próximos, e você não precisa negociar um aumento antes de existir resultado para mostrar.

O cliente disse que recebeu uma proposta mais barata. O que fazer?

Coloque os dois escopos lado a lado em quantidade, e não em adjetivo: quantas campanhas, quantas peças por mês, quantos relatórios e quem responde quando algo quebra. A diferença de preço quase sempre corresponde a uma diferença de trabalho que o cliente não tinha percebido. Se ainda assim ele preferir o mais barato, encerre bem e mantenha o contato, porque parte desses clientes volta em alguns meses.

Quanto de desconto é aceitável em um contrato de gestão de tráfego?

Se a entrega continuar inteira, nenhum. Com contrapartida, faixas entre cinco e dez por cento para pagamento trimestral antecipado ou compromisso de prazo maior costumam se sustentar, porque reduzem risco e custo de cobrança. O que importa observar não é o percentual, e sim o efeito na margem: com custo fixo por conta, quinze por cento no preço podem valer mais de um terço do lucro daquele contrato.

Como voltar ao preço cheio depois de ter dado desconto?

Com data combinada desde o começo, porque condição sem prazo vira preço definitivo. Quando o prazo não foi combinado, trate como reajuste: avise por escrito com trinta dias, escolha um mês de bom resultado, mostre o percurso da conta antes de falar do valor e inclua algo novo e visível junto, como um painel que não consome horas adicionais suas.

Devo colocar duas ou três opções de valor na proposta?

Sim, e isso reduz bastante a frequência do pedido. Com um valor único, a decisão é aceitar ou recusar, e recusar costuma aparecer em forma de pedido de abatimento. Com três formatos de contratação, a conversa vira escolha entre alternativas, e quem tem orçamento apertado encontra sozinho a opção menor, sem precisar pedir o mesmo trabalho por menos.

Caroline Gandara

Caroline Gandara

Gestora de tráfego pago e empreendedora. Atende clientes, constrói os próprios sistemas e ensina gestores a fazerem o mesmo.

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